A recepção de Lukács no Brasil

Versión para impresoraEnviar a un amigo

Autor: Celso Frederico (USP)

É somente após o XX Congresso do PCUS (Partido Comunista da União Soviética), em 1956, quando se inicia, ainda que parcialmente, o rompimento com a ortodoxia stalinista, que Lukács começa a ser conhecido pelo movimento comunista e, consequentemente, pela esquerda brasileira.

Em 1959, os comunistas brasileiros tomam, pela primeira vez, contato "oficial" com as idéias de Lukács. A revista Problemas da paz e do socialismo (número 4, 1959), órgão movimento comunista internacional, publicou em sua edição para o Brasil, o ensaio de Bela Fogarasi, "As concepções filosóficas de Georg Lukács", que refletia a animosidade então existente contra o nosso autor devido à sua participação nas ações "contra-revolucionárias" em 1956.

Ainda em 1959, a revista Estudos sociais (número 5), dirigida pelo fundador do PCB, Astrojildo Pereira, publica o primeiro texto de Lukács em língua portuguesa: o prefácio de A destruição da razão, que apareceu com o título "O irracionalismo - fenômeno internacional do período imperialista".

A revista era então o pólo que aglutinava os intelectuais comunistas preocupados em renovar o marxismo para além das cartilhas stalinistas, com suas inevitáveis três leis da dialética, cinco modos de produção etc. Mas os tempos ainda não eram totalmente favoráveis a maiores ousadias. Por isso, prudentemente, o texto de Lukács fez-se acompanhar do ensaio "Relação entre as idéias políticas e filosóficas de Lukács", de autoria de Joszef Szigeti, Ministro da Cultura da Hungria. Seguindo uma linha de argumentação idêntica à de Bela Fogarasi, apesar da linguagem menos truculenta, o autor aproveitou para estender a crítica aos discípulos de Lukács na Hungria (István Mészáros, Miklos Almasi e Agnes Heller). Na apresentação dos dois textos, Estudos Sociais incluiu uma cautelosa "nota da redação" informando que a publicação visava a contribuir para o debate sobre o desenvolvimento do pensamento filosófico marxista.

De qualquer modo, as condições favoreciam a renovação. No plano internacional, iniciava-se um debate nos partidos comunistas ainda perplexos com o processo de desestalinização. Internacionalmente, os grupos renovadores já haviam obtido uma importante vitória política com a Declaração de março de 1958, documento aprovado pela direção do PCB, que acenava pela primeira vez para a centralidade da questão democrática na construção do socialismo, rompendo assim, com a estratégia insurrecionalista e com o dogmatismo fomentado pela importação de modelos teóricos (no caso: o modelo de revolução para os países coloniais, elaborado pela Internacional Comunista em 1928 e, desde então, seguido pelo PCB).

Paralelamente, a mais significativa referência a Lukács já havia sido feita em 1960 pelo respeitável intelectual marxista Nelson Werneck Sodré, na edição atualizada de sua História da Literatura Brasileira, pela Editora José Olympio. O conhecido historiador incorporou explicitamente diversas idéias lukacsianas em sua interpretação de nossa história literária. Graças ao pioneirismo e ao prestígio de Nelson Werneck Sodré, Lukács ingressou, em grande estilo, nos estudos da literatura brasileira.

Um dos primeiros intelectuais brasileiros a encampara as idéias de História e consciência de classe foi Michael Löwy. Em 1962, ele publicou um ensaio "Consciência de classe e partido revolucionário", na Revista Brasiliense (número 41), em que traça um painel das posições teóricas sobre a relação entre partido político e espontaneidade operária. O texto concentra-se na exposição das idéias de Lênin, Rosa, Gramsci e o Lukács de História e consciência de classe, ocupando uma posição de honra (a última parte tem como subtítulo "A síntese teórica de Lukács").

O mesmo Löwy, em parceria com Sara Chucid, havia realizado na época uma pesquisa empírica sobre a consciência política dos dirigentes sindicais, publicada na Revista brasileira de estudos políticos ("Opiniões e atitudes dos líderes sindicais metalúrgicos", número 13, 1962). A inspiração do tema, evidentemente, veio de História e consciência de classe, passando a ser, daí para frente, referência teórica para pesquisas sociológicas sobre a consciência dos trabalhadores urbanos.

Assim, aos poucos, Lukács foi sendo conhecido pelo público brasileiro no período anterior ao golpe militar de 1964. O contato com as suas idéias foi também facilitado pelas recentes traduções em italiano e francês que passaram a circular em nossas livrarias. Mas foi somente após o golpe que a obra de Lukács conheceu uma maior divulgação.

A política cultural

Fechando as portas da participação política institucional, o golpe militar de 1964 fez da resistência cultural um pólo de aglutinação dos opositores ao regime.

A efervescência artística do pré-64, expressa no cinema novo, na bossa-nova, nos Centros Populares de Cultura, desdobrou-se, após o golpe, num amplo movimento de resistência cultural contra os novos governantes, a censura e o chamado "terrorismo cultural". A contestação inicial do regime foi feita basicamente pela intelligentsia radicalizada, num momento dramático em que a classe operária encontrava-se desmobilizada e sofrendo uma repressão que os donos do poder não ousavam estender para a classe média intelectualizada. É este o contexto de onde surgirá o aguerrido movimento estudantil que, a partir de 1966, ocupou as principais cidades do país, desafiando a ditadura.

Uma mudança se passava em nossa estrutura de classes, sem que na época se pudesse perceber com clareza. Trata-se da formação de um vasto contingente de produtores e consumidores de cultura, uma numerosa pequena burguesia intelectualizada, geradora das condições para a criação de um mercado e de uma indústria de bens culturais no Brasil. Esse setor era o campo principal para as idéias de esquerda e o núcleo de resistência ao regime militar. A publicação das primeiras traduções de Lukács vai se dar nesse ambiente de radicalização política.

O destino de Lukács esteve inicialmente vinculado ao projeto de um pequeno grupo de intelectuais comunistas não ligados profissionalmente à vida acadêmica. Os ventos da renovação do movimento comunista internacional e a situação específica da esquerda brasileira, derrotada, frustrada e inquieta com os rumos do regime militar, favoreceram a aproximação e a adesão às idéias lukacsianas, que haviam, como vimos, começado a ser digeridas ainda no pré-64.

Um fato realmente surpreendente é a erudita obra de Lukács ter sido recebida com entusiasmo por divulgadores que a ela tiveram acesso quando tinham, quase sempre, entre 20 e 25 anos de idade. Essa intelectualidade al primo canto dedicou todos os seus esforços para tornar Lukács uma referência obrigatória nos debates intelectuais. A precocidade intelectual parece ter sido uma característica dessa fase heróica: foram os jovens que impulsionaram a bossa nova, o cinema novo, o teatro, que puxaram a resistência ao golpe militar e, finalmente, empunharam armas na guerrilha urbana.

A divulgação da obra de Lukács, assim, esteve inicialmente nas mãos de jovens intelectuais, quase todos gravitando ao redor do PCB, que atuavam no Rio de Janeiro (Leandro Konder, Carlos Nelson Coutinho), em São Paulo (José Chasin, José Carlos Bruni) e, posteriormente, em Juiz de Fora (José Paulo Netto, Gilvan Procópio Ribeiro e Luiz Sérgio Henriques).

Outra característica importante é que as condições políticas da época impediram que a jovem intelectualidade emergisse como uma alternativa de direção dentro do PCB: ao invés da política strictu sensu, os intelectuais concentraram-se basicamente no campo específico da política cultural. Assim, eles não "incomodavam" a direção do partido e, em troca, garantiam sua autonomia de trabalho. A convivência era facilitada pela estreita afinidade entre a política geral do PCB e a linha lukacsiana imprimida ao trabalho intelectual. Basta lembrar aqui que a política cultural de Lukács é um desdobramento da política de frente, exposta pela primeira vez em 1929 nas "Teses de Blum", a qual, por sua vez, guarda algumas semelhanças estratégicas com a linha desenvolvida pelo PCB após 1958. Por isso, a direção do partido usou dos recursos que tinha (presenças nas editoras, jornais, cursos e palestras em entidades de massa etc.) para promover ao máximo alguns desses intelectuais, que logo ficaram amplamente conhecidos pelo público, desfrutando de uma notoriedade em boa parte devida à ação subterrânea do partido.

A adoção das idéias de Lukács, no Brasil, teve diferentes significados. Antes de mais nada, ela inseria-se no esforço de renovação do marxismo pós-desestalinização; servia de suporte teórico na luta ideológica contra o irracionalismo (em especial a filosofia existencialista que tanto prestígio teve entre nós na década de 50 e início da década de 60) e, depois, contra o formalismo, estruturalismo e positivismo (em voga nos anos 70); servia, também, para se reestudar criticamente a literatura e servia, finalmente, em escala menor, para se pensarem temas da realidade brasileira.

Assim concebida, a política cultural de orientação lukacsiana inseria-se num quadro estratégico. Inicialmente, voltava-se contra o passado imediato dos comunistas, expresso na petrificação da teoria dos manuais soviéticos, que continuariam, durante longo tempo, servindo de base para a educação dos quadros partidários. No plano artístico, permitia a crítica da experiência proletkult dos Centros Populares de Cultura da União Nacional dos Estudantes e do zdanovismo incrustado na tradição do partido. Finalmente, a política cultural de extração lukacsiana seria o instrumento intelectual para se disputar a hegemonia junto à intelectualidade e aos produtores artísticos.

Uma divulgação militante

A divulgação das idéias do filósofo húngaro foi feita através da tradução de suas obras, da publicação de livros de inspiração lukacsiana, quase sempre por editoras próximas ao PCB e, também, através da participação de seus discípulos nas diversas revistas que surgiram nos anos 60 e 70.

À luz das idéias lukacsianas, diversos trabalhos de valor foram publicados. Leandro Konder escreveu um interessante livro, modesto nas pretensões, mas muito útil para os estudiosos, chamado Os marxistas e a arte (Civilização Brasileira, 1967), em que resenha as diferentes interpretações marxistas sobre o fenômeno artístico a partir do prisma lukacsiano. Em 1978, escreveu o ensaio "Lukács e a arquitetura" (reproduzido na antologia O Marxismo na batalha das idéias (Nova Fronteira, 1984). A reflexão global de Leandro Konder sobre o pensador húngaro está na cuidadosa biografia intelectual acompanhada por uma seleção de textos: Lukács (L&PM, 1980).

Carlos Nelson Coutinho, numa época difícil, enfrentou, praticamente sozinho, a vaga estruturalista que assolava o país, através do livro O estruturalismo e a miséria da razão (Paz e Terra, 1972). As peripécias para conseguir um editor para a obra foram um capítulo à parte na história da censura e da autocensura, em época de repressão política e acovardamento geral.

Uma apropriação flexível e inteligente de algumas categorias da estética lukacsiana foi feita pelo poeta Ferreira Gullar, num importante livro de crítica literária, Vanguarda e subdesenvolvimento (Civilização Brasileira, 1969), escrito para discutir a tese da validade universal das experiências formais da vanguarda, tal como era proposta à época por muitos artistas e críticos.

José Paulo Netto expôs temas estéticos em dois ensaios publicados na Revista de Cultura Vozes: "Lukács e a teoria do romance" (número 6, ano 68, 1974) e "A teoria do romance do jovem Lukács" (número 10, ano 70, 1976). Quando de seu exílio em Portugal, escreveu Lukács e a crítica da filosofia burguesa (Seara Nova, 1978), e um longo prefácio à Carta sobre o stalinismo (Argumentos/Seara Nova, 1978). Mais tarde, lançou "Para a crítica da vida cotidiana" em Cotidiano: conhecimento e crítica (Cortez, 1987), onde apresenta as idéias de Lukács sobre o tema. Finalmente, deve-se a José Paulo Netto uma equilibrada biografia, na qual nos apresenta um juízo sereno sobre a produção intelectual de nosso autor: Lukács - o guerreiro sem repouso (Brasiliense, 1983).

As tradições portuguesas de alguns livros de Lukács circularam amplamente no Brasil: a Teoria do romance (Presença, s/d); a comunicação conhecida por "Visão aristocrática e democrática do mundo", apresentada por Lukács nos "Encontros internacionais de Genebra", em 1946, seguida da célebre polêmica com Karl Jaspers, está incluída no livro O espírito europeu (Publicações Europa-América, 1962); em 1968, as Publicações Don Quixote editaram a correspondência entre Lukács e Anna Seghers com o título de O escritor e o crítico; há também a tradução portuguesa de História e consciência de classe (Publicações Escorpião, 1978); um capítulo dessa última obra foi reproduzido junto com o ensaio de Adam Schaff em Sobre o conceito de consciência de classe (Publicações Escorpião, 1973); finalmente, João Barrento reuniu e apresentou ensaios de Bloch, Eisler e Brecht relativos ao debate sobre o expressionismo. Lukács comparece com "Trata-se do realismo!" (cf. Realismo, materialismo, utopia. Moares Editores, 1978).

A via prussiana

Um tema de inspiração lukacsiana sempre presente entre seus discípulos preocupados em entender as peculiaridades da vida social e cultural brasileira, diz respeito ao modo pelo qual nosso país assistiu à transição para o capitalismo. A busca da forma particular pela qual o capitalismo se objetivou na formação social brasileira, com todas as suas decisivas implicações, levou diversos autores à retomada do conceito de via prussiana, presente em alguns textos de Marx e desenvolvidos depois por Lênin, Lukács e, num registro diferente, por Gramsci.

O primeiro a falar da possibilidade de se pensar a nossa realidade à luz dessa referência foi João Quartim de Moraes, leitor atento da obra de Lênin. Num artigo não assinado para a revista Debate, editada na França por exilados políticos, ele analisou a política agrária da ditadura como expressão da modernização conservadora que vinha implementando uma "reforma agrária prussiana" no Brasil (cf. "As contradições no seio da classe dominante", em Debate, número 6, 1971).

Os leitores de Lukács também entenderam que a transição no Brasil pode ser explicada apelando-se para a via prussiana: uma forma de modernização social, feita de cima para baixo, através da conciliação das elites e da exclusão das massas nas decisões sociais e políticas. Contrariamente ao modelo clássico de transição, no qual ocorre uma ruptura entre o velho (as relações de produção no campo, as instituições políticas autoritárias etc.) e o novo (o capitalismo, a democracia política etc.), na via prussiana o desenvolvimento tardio das relações de produção capitalista é feito pela composição entre as classes dominantes, sem a democracia política e sem contar com a participação popular.

O tema, em sua direta inspiração lukacsiana, foi trabalhado inicialmente no ensaio de C.N. Coutinho sobre Lima Barreto em Realismo & anti-realismo na literatura brasileira (Paz e Terra, 1974), mas logo deixou de ser um pano de fundo da compreensão literária para se tornar chave explicativa da formação social brasileira e referência central para se situar a luta política pela redemocratização do país. A luta democrática passava a ser interpretada como uma reversão do prussianismo presente em toda a nossa vida política.

O conceito, assim, iluminou diversos estudos sobre a realidade brasileira. Entre outros citaríamos: Luiz Werneck Vianna, Liberalismo e sindicato no Brasil (Paz e Terra, 1976); Leandro Konder, A democracia e os comunistas no Brasil (Graal, 1980); Ivan de Otero Ribeiro, "A importância da exploração familiar camponesa na América Latina", em Temas de Ciências Humanas, número 4, 1978; Marco Aurélio Nogueira, As desventuras do liberalismo: Joaquim Nabuco, a monarquia e a república (Paz e Terra, 1984).

A utilização política mais influente do conceito de via prussiana está no artigo de C.N. Coutinho "A democracia como valor universal" (in Encontros com a Civilização Brasileira, número 9, 1979), o texto mais lido e debatido pela esquerda na década de 80. O conceito serviu para caracterizar a tendência elitista e excludente de nossa formação social, que se manifesta desde a proclamação da República (uma manobra "pelo alto"), passando pelo império, pela Revolução de 30, até se exasperar no pós-64. O antídoto à via prussiana, para o autor, é a "renovação democrática" da vida política. A partir desse diagnóstico, C.N. Coutinho deixa de lado Lukács e passa a se apoiar em Gramsci e seus pupilos italianos.

Numa linha diferente, outro lukacsiano, J. Chasin, reconhecendo a fecundidade das reflexões de Lukács sobre a via prussiana como um modelo não clássico de objetivação do capitalismo, procura distinguir, no interior destas, as particularidades brasileiras para, assim, evitar tomar o "caso alemão" como modelo único. Comparando a história das duas formações sociais, procurou avançar no processo de diferenciação e concreção:

...enquanto a industrialização alemã é das últimas décadas do século XIX, e atinge, no processo, a partir de certo momento, grande velocidade e expressão, a ponto da Alemanha alcançar a configuração imperialista, no Brasil a industrialização principia a se realizar efetivamente muito mais tarde, já num ponto avançado da época das guerras imperialistas, e sem nunca, com isto, romper sua condição de país subordinado aos pólos hegemônicos da economia internacional. De sorte que "o verdadeiro capitalismo" alemão é tardio, enquanto o brasileiro é hipertardio (Chasin, 1978: 628).

Essa diferenciação, entre outras, faz com que o autor prefira a designação caminho colonial para apontar a particularidade de um caso específico de realização do capitalismo. O leitor atento às implicações políticas dos conceitos teóricos percebe, sem maiores dificuldade, que esta não é uma querela meramente terminológica. A referência à condição colonial e à subordinação ao capitalismo internacional acena para um redirecionamento da "questão democrática", que perde a sua autonomia absoluta quando unida à "questão nacional".

O adeus a Lukács

A divulgação de Lukács, como procuramos mostrar, foi obra de uma geração de intelectuais que se firma, principalmente, a partir do Golpe de 1964, amplia-se e renova-se durante a década de 70, quando novos jovens se integraram na reorganização do PCB. Durante longos anos, essa intelectualidade, forçada pelas circunstâncias políticas adversas, ficou confinada à militância cultural. Mudadas as circunstâncias, a velha e a nova intelectualidades de extração lukacsiana redefiniram a sua militância. E, como costuma acontecer nesses momentos decisórios, os destinos biográficos foram os mais diferentes. Para muitos, curiosamente, a crise do regime militar e a reativação da política institucional implicou o abandono do leninismo e, por extensão, de Lukács e da tradição política e cultural que ele encarnava.

Uma questão de fundo permanece: por que Lukács deixou de ser uma referência intelectual no momento em que os seus discípulos passaram da política cultural à política stricto sensu?

A resposta à pergunta leva-nos, inicialmente, à constatação do caráter episódico da reflexão lukacsiana no campo da teoria política. Das problemáticas incursões juvenis à retomada da política nos textos publicados postumamente (O homem e a democracia, por exemplo), há um longo hiato só preenchido momentaneamente por entrevistas e rápidos comentários. Apesar disso, o pensamento lukacsiano, em seu conjunto, contém os germes de uma teoria política de matriz leninista. O leitor atento da Ontologia pode, também, estabelecer as relações da política com a esfera ideológica. Mas isso, efetivamente, é muito pouco.

Gramsci, ao contrário, é um autor que desenvolveu uma teoria política original. Os seus textos -sem a densidade filosófica e o rigor metodológico de Lukács- voltam-se diretamente para a esfera do político e abrem pistas novas para a teoria marxista. Por outro lado, o caráter fragmentário de sua obra (diferentemente do texto sintetizador e totalizante de Lukács) permite uma interpretação mais aberta e maleável. É por isso, aliás, que o pensamento de Gramsci serviu, entre outras coisas, à instrumentalização política feita por militantes eurocomunistas italianos, como Berlinguer, Ingrao, Napolitanao etc. (políticos brilhantes e teóricos inexpressivos); aos exercícios acadêmicos de political science (nos quais Gramsci é separado da tradição marxista revolucionária); às pesquisas na área educacional (em que o comunista italiano costuma ser apresentado como um precursor da pedagogia de Paulo Freire...); e, ainda, como referência teórica nas análises da vida política brasileira (sem que suas ricas categorias, frutos da particularidade italiana, passem pelo mesmo processo de concreção para se aclimatar no novo terreno).

Com Lukács fora de cena, encerra-se um capítulo na história da recepção político-partidária de suas idéias no Brasil. Paralelamente à trajetória perseguida pelos intelectuais comunistas -e por eles, de certa forma, influenciados- Lukács foi sendo aos poucos incorporado nas universidades.

Lukács na universidade

Apesar da importância de Lukács para o pensamento marxista do século XX, suas idéias nunca circularam nos meios acadêmicos. Pelo contrário: um silêncio desdenhoso, fruto do desconhecimento ou da má vontade, sempre acompanhou as obras do nosso autor. Além das razões biográficas (os longos anos de ostracismo e de campanhas difamatórias sofridas por Lukács), o anticomunismo (de direita e de esquerda) dominante nas universidades foi também um dos fatores responsáveis pela sua rarefeita presença.

As formas de recepção ou a simples hostilidade podem ser acompanhadas em três áreas acadêmicas distintas: filosofia, sociologia e literatura. Como é impossível abordar esse processo em todo o país, atenho-me basicamente à Universidade de São Paulo, fazendo uma ou outra referência fora desse centro de estudos. A prioridade atribuída à USP justifica-se não só por ser um pólo irradiador das discussões acadêmicas como também pelo fato de, durante muitos anos, boa parte da intelectualidade em outros estados (o Rio de Janeiro, por exemplo), ter-se mantido fora da vida universitária.

1. A filosofia

A presença decisiva de professores franceses na formação e consolidação do Departamento de Filosofia da USP manteve o currículo escolar atrelado, durante décadas, a um determinando tipo de orientação. A França era a única referência para os nossos estudiosos de filosofia que aqui se formavam e, não raro, lá complementavam os seus estudos. Por isso, Michel Foucault disse certa vez a um colega seu da USP que "le département de philosophie c’est un département français d’outre-mer". Essa francofilia manteve várias gerações de estudiosos distantes da cultura, da língua da filosofia alemãs. Com isso, evidentemente, Marx permanecia uma autor secundário e, junto com ele, Lukács.

Foi somente durante a polarização política e ideológica vigente no pré-64 que Marx começou a ser visto como um autor digno de atenção. Nessa época formou-se, pela primeira vez um grupo interdisciplinar para estudar O Capital. O professor Paulo Arantes, conhecedor da filosofia clássica alemã e estudioso das raízes francesas da filosofia praticada na USP, fez o seguinte comentário sobre o espírito que orientava a leitura de Marx: "não havia cursos especializados sobre Marx na faculdade, alguns professores e alunos mais adiantados resolveram se reunir para ler O Capital (...). Inútil lembrar que tudo era francês: métodos, técnicas e temas. (...) Começaram a ler O Capital como Guéroult ou Goldschmidt explicavam Platão ou Descartes..." (Arantes, 1989: 38, 41).

Evidentemente, em tal caldo de cultura a descoberta da novidade revolucionária que o marxismo abria à reflexão filosófica permaneceu desconhecida. Para um autor tão integrado ao marxismo e à cultura alemã, como Lukács, não sobraria nenhum espaço, tirante uma vaga simpatia por História e consciência de classe e a convicção de que ele não era "propriamente" um filósofo.

É por isso que só a partir da década de 80 Lukács pode tornar-se objeto de estudo. Wolfgang Leo Maar dedicou duas teses ao pensador húngaro: O coração e as almas. Introdução à leitura da teoria política em Lukács - 1918-1920 (1980) e Formação da teoria em História e consciência de classe de Lukács (1988).

Carlos Eduardo Jordão escreveu uma tese que analisa uma importante polêmica estética travada por Lukács - O debate sobre o expressionismo: um capítulo da modernidade estética (1991). Marcos Nobre revisitou a obra mais conhecida de Lukács: Limites da reificação. Um estudo sobre História e consciência de classe. L. B. Montez escreveu O conceito de totalidade e o lugar de Goethe no pensamento de Lukács (1994). Arlenice Silva cruzou literatura e filosofia em O épico moderno. O romance histórico em Lukács (1999).

 

2. A sociologia

A escola sociológica liderada por Florestan Fernandes há muito conhecia e estudava as obras de Marx. Aliás, o próprio Florestan Fernandes, em 1946, traduziu e prefaciou a Contribuição à crítica da economia política. Os clássicos do marxismo, portanto, sempre estiveram presentes na formação dos sociólogos.

O projeto intelectual uspiano, entretanto, estava inteiramente voltado para a justificação da sociologia como uma ciência autônoma, dotada de um objeto e de um método próprios. A filiação positivista desse projeto é clara. Basta lembrar aqui a afirmação durkheimiana segundo a qual os fatos sociais devem ser explicados através de outros fatos sociais, isto é, sem a necessidade de se recorrer a outras instâncias (economia política, história, etc.). A formação do arsenal teórico da sociologia praticada inicialmente na USP incluía Durkheim, Weber, Marx e o estruturo-funcionalismo americano. Marx, assim, era um autor importante citado elogiosamente como "um clássico da sociologia alemã", e não como o criador do materialismo histórico.

Essa incompreensão da novidade instaurada pela obra de Marx dificultava uma aproximação a Lukács, o que era reforçado certamente pela indisfarçável hostilidade deste último para com os sociólogos (Wright Mills era uma das poucas exceções). Desde História e consciência de classe, Lukács contestava, sem meias palavras, a pretensão de se estudar o "social" como objeto autônomo de conhecimento. Nesta obra, reivindica-se um conhecimento teórico-prático totalizador e integrado da realidade. A sociologia, por sua vez, junto com as demais ciências particulares, é vista como a expressão reificada da divisão social do trabalho. Mais virulenta ainda é a crítica feita nas páginas de A destruição da razão: a sociologia é apresentada como uma forma regressiva e conservadora de conhecimento que se afirmou exatamente quando a teoria do valor-trabalho havia mostrado as suas implicações revolucionárias. A explicação do "social" autonomizado é, assim, uma manifestação de conservadorismo interessada em esconder o subterrâneo da sociedade capitalista, a economia política, o local obscuro no qual se realiza a exploração do trabalho humano. Em outros livros, como na Ontologia e na entrevista concedida a Franco Ferrarotti (cf. F. Ferrarotti, Colloquio com Lukács, la ricerca sociologica e il marxismo, Franco Angeli Editore, 1975), Lukács voltou ao assunto.

Em qualquer um desses momentos Lukács surge como um pensador inconveniente que inviabiliza qualquer tentativa de se glorificar a "natureza sociológica da sociologia", ao denunciar o pressuposto conservador dessa empreitada (que, curiosamente, coexistia com o ideário politicamente progressista da sociologia eclética da USP). Lukács, portanto, era um autor a ser evitado.

Neste contexto, ele só pôde surgir como reforço teórico daqueles pesquisadores que divergiam do pensamento sociológico hegemônico no curso de Ciências Sociais da USP e presente em quase todas as universidades brasileiras até o início da década de 1970. A partir de então alguns dos antigos professores daquele departamento passaram finalmente a incorporar em suas pesquisas temas lukacsianos.

A principal menção da presença de Lukács está nos diversos livros de Michael Löwy, em que o autor, já residindo na França, parece querer ajustar contas com o seu passado uspiano: Método dialético e teoria política (Paz e Terra, 1975), Ideologias e ciência social (Cortez, 1985) e As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchausen (Busca Vida, 1987).

A crítica à sociologia feita na ótica lukacsiana está presente nos seguintes ensaios: José Paulo Netto, "Lukács e a sociologia" (Contexto, número 1, 1976) e Marco Aurélio Nogueira, "Anotações preliminares para uma história crítica da sociologia" (Temas de Ciências Humanas, número 3, 1978)..

As reflexões de Lukács sobre o tema da consciência de classe, bem como suas discussões metodológicas inspiraram diversos pesquisadores que estudaram o movimento operário e suas representações ideológicas. Entre eles, este que escreve, Celso Frederico, Consciência operária no Brasil (Ática, 1978) e Vanguarda operária (Símbolo, 1979); Ricardo Antunes, Classe operária, sindicato e partido no Brasil (Cortez, 1988) e A rebeldia do trabalho (Ensaio/Unicamp, 1988); e Adalberto Paranhos, "Consciência de classe e consciência possível" (em Revista de Cultura Vozes, número 8, ano 70, 1976).

O mito positivista da objetividade, proclamado pela sociologia, fez-se também presente em nossas escolas de jornalismo, o que motivou a certeira crítica de inspiração lukacsiana feita por Adelmo Genro Filho, O segredo da pirâmide. Para uma teoria marxista do jornalismo (Tchê!, 1987).

A sociologia produz ainda os insumos teóricos de que se alimentam as pesquisas na área de serviço social. A crítica definitiva a essa recepção da sociologia está em José Paulo Netto, Ditadura e serviço social (Cortez, 1991).

3. A Literatura

O projeto que norteou a vida intelectual de Antonio Candido e seus discípulos lotados principalmente no Departamento de Teoria Literária da USP -o estudo das relações entre literatura e sociedade- fatalmente passaria pela obra de Lukács. E o encontro parece ter ocorrido já na década de 50, nas salas de aula e em algumas breves referências ao pensamento lukacsiano como, por exemplo, no ensaio "A compreensão da realidade", de 1957, republicado em 1959 no livro O observador literário, em edição do Conselho Estadual de Cultura. Nesse momento, entretanto, Antonio Candido já era um crítico formado: durante a década de 40 -bem antes de tomar contato com a obra de Lukács- ele já havia desenvolvido sua própria teoria sobre as relações entre literatura e sociedade.

Lukács teve por isso uma recepção difusa em alguns discípulos de Antonio Candido (Davi Arrigucci Jr., João Luiz Lafetá, Walnice Nogueira Galvão etc.) Sua obra foi tomada mais como fonte para se estudarem os nexos da literatura com a sociedade, bem como para tratar de tópicos relativos principalmente à prosa (gênero romanesco, realismo, tempo, ironia etc.).

A concepção lukacsiana serviu também de referência para muitos estudos de nossa literatura regionalista produzida no pré-modernismo e fortemente impregnada pelo naturalismo. Entre os inúmero trabalhos realizados nessa linha de pesquisa, poderíamos citar: Lígia Chiappini, Regionalismo e Modernismo (Ática, 1978) e No entretanto dos tempos: literatura e história em João Simões Lopes Neto (Martins Fontes, 1988); Carmen Lydia de Souza Dias, Paixão de raiz: Valdomiro Silveira e o regionalismo (Ática, 1984); Flávio Loureiro Chaves, Simões Lopes Neto: regionalismo e literatura (Mercado Aberto, 1982); Adilson Odair Citelli , O mundo do silêncio: um estudo sobre Pelo Sertão, de Afonso Arinos (USP, ms., 1981).

Destaque especial deve ser concedido ao livro de Alfredo Bosi, História concisa da literatura brasileira, editado em 1970, pela editora Cultrix, com sucessivas reedições. O livro teve um enorme sucesso de público e foi adotado em cursos secundários e universitários. Para dar conta de nossa história literária, Alfredo Bosi incorporou diversos temas lukasianos como a distinção naturalismo/realismo, a categoria da tipicidade e a noção de visões do mundo tirada por Goldmann das páginas de História e consciência de classe. Esta última noção foi enriquecida pelo autor com uma tipologia dos graus crescentes de tensão existentes entre o herói do romance e o seu mundo. Com esse recurso, Alfredo Bosi abriu a possibilidade para uma interpretação social do romance psicológico de Clarice Lispector, ou mítico de Guimarães Rosa, marcados por formas de "tensão transfigurada", que haviam se tornado em tradicionais mata-burros de toda crítica sociológica sectária.

Finalmente cabe realçar os trabalhos do crítico Roberto Schwarz. A sua leitura inteligente e flexível da obra lukacsiana lhe permitiu dar um tratamento rigoroso à crítica literária. Vejam-se, a propósito, os livros A sereia e o desconfiado (Paz e Terra, 2ª ed., 1981), O pai de família e outros ensaios breves (Paz e Terra, 1978) e os estudos dedicados ao nosso maior escritor, Machado de Assis, aquele que para ser realista rompeu com os limites impostos pelo cânon do realismo clássico: Ao vencedor as batatas (Duas Cidades, 1977) e Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis (Duas Cidades, 1990).

Passado e futuro

Seja pela absorção acadêmica seletiva ou pela assimilação militante apressada, Lukács deixou de ser um autor conhecido do público brasileiro.

No ambiente acadêmico, como vimos, sua recepção resumiu-se, quase sempre, ao reaproveitamento instrumental de alguns conceitos. Essa assimilação, portanto, pôde ser feita independentemente da concordância com a orientação marxista do pensamento lukacsiano.

Para a esquerda brasileira atuante fora da academia, diferentemente, Lukács surgiu como um pensador capaz de impulsionar a renovação do marxismo, exigência que entrou na ordem do dia após o XX Congresso do PCUS. Como procuramos mostrar nas páginas anteriores, essa tarefa foi levada à frente por uma jovem intelectualidade comunista que concentrou sua atuação no encaminhamento da política cultural do PCB. O encontro com o pensamento de Lukács servia tanto para superar o catecismo stalinista quanto para fazer frente ao enorme prestígio então desfrutado pela filosofia existencialista.

A utilização de Lukács no combate à filosofia da existência como uma das expressões modernas do irracionalismo merece uma observação à parte. O finca-pé na defesa do marxismo clássico e na razão como o divisor de águas do pensamento filosófico volta-se diretamente contra a filosofia existencialista que, apesar dos pesares, trazia temas novos e necessários. A simples condenação e rejeição deixou o marxismo desarmado diante de questões que poderiam ter enriquecido o seu referencial teórico (a liberdade individual, a psicanálise etc.). E foram justamente esses temas ventilados pelo existencialismo que, tempos depois, conquistaram a intelectualidade progressista. Por isso, o lugar do marxismo clássico, encarnado por Lukács, foi sendo ocupado cada vez mais por um complexo cultural heterogêneo que configurou a visão do mundo da chamada "nova esquerda". Essa orientação intelectual esteve presente na revolução dos costumes, na organização das minorias, no movimento feminista e no pensamento político voluntarista (que substitui Lênin por Che, Mao, Marcuse etc.). Nesse contexto, o realismo dialético de Lukács foi visto como antiquado e pouco útil à impaciência revolucionária de uma pequena-burguesia intelectualizada, ansiosa por fazer uma revolução radical capaz de modificar não só a economia, mas, principalmente, a superestrutura da sociedade. O único livro de Lukács que despertou algum interesse foi História e consciência de classe. Sabemos que ele foi lido por militantes das organizações armadas nos anos 67-68, mas certamente serviu apenas de combustível para a fé revolucionária e o messianismo político, pois não deixou vestígio nos documentos escritos na época.

No refluxo ocorrido no pós-68 consolidou-se a tendência irracionalista, que teve, como contraponto, a efêmera ascensão do formalismo estruturalista e de sua versão marxista com Althusser. Tanto numa quanto noutra, a ruptura com o legado hegeliano desconsiderava todo o projeto lukacsiano. Mesmo no período posterior, o da abertura política, o irracionalismo ganhou novas roupagens e permaneceu influente junto a vastos segmentos da esquerda intelectualizada, enquanto o lugar ocupado momentaneamente por Althusser passou a sê-lo por uma interpretação antileninista de Gramsci.

Há, finalmente, um último obstáculo que vem dificultando a recepção das idéias de Lukács e que merece ser destacado. Trata-se, em poucos palavras, da incompatibilidade entre a reflexão lukacsiana e, digamos, o espírito do tempo. Se a reivindicação da ontologia como o caminho para a renovação do marxismo esbarra na indigência teórica da pós-modernidade, o gosto literário de Lukács, por outro lado, é passadista em seu arraigado neoclassicismo ancorado na estética realista do século XIX. Tal aspecto deixou os discípulos desarmados para enfrentar a interpretação da arte moderna e parte da cultura brasileira e latino-americana, de tradição jesuítica, herdeira direta do Barroco ibérico. O exemplo admirável do "realismo mágico" da literatura latino-americana e de significativa parte de nossa melhor produção artística (Aleijadinho, Villa-Lobos, Guimarães Rosa, Niemeyer etc.) é, de uma forma ou outra, influenciada pela tradição barroca e por seus métodos de figuração.

A incompatibilidade entre o viés classicista da estética lukacsiana e o caldo de cultura dominante nesta parte da periferia do mundo capitalista inviabilizou o projeto de política cultural acalentado pelos jovens intelectuais do PCB. As dificuldades que sobrevieram já estavam anunciadas no início dos anos 60, quando os produtores artísticos próximos ao partido tomaram contato, pela primeira vez, com o pensamento estético de Lukács, através da publicação de suas obras, de cursos e palestras promovidas pelos "trabalhadores intelectuais" do PCB. A concordância com a necessidade de renovar o marxismo, de se fazer uma arte que refletisse os problemas sociais do Brasil, foi pacífica. O fascínio exercido pelos textos de Lukács foi imediato. Mas não foi decisivo.

Os artistas de teatro, por exemplo, estavam empenhados numa luta para renovar o "realismo clássico" presente no teatro brasileiro. Para eles, a principal referência continuava sendo o "teatro épico" de Brecht. Lukács, neste contexto, parecia-lhes um continuador daquelas concepções "aristotélicas" que pretendiam combater.

O mesmo fenômeno deu-se no cinema, onde o pensamento de Lukács era divulgado pelo crítico italiano Guido Aristarco. O interesse logo despertado pelas idéias estéticas de Lukács aplicadas ao cinema colidia com o fascínio por Eisenstein e suas técnicas vanguardistas de montagem.

Tanto no teatro como no cinema a recepção de Lukács teve pela frente a resistência de dois clássicos geniais, Brecht e Eisenstein, ambos defensores, cada um a seu modo, do realismo em arte. Embora fossem teóricos sem o vigor e a envergadura intelectual de Lukács, eram ambos artistas de importância universal, e, ainda por cima, personalidades inseridas na tradição cultural do movimento comunista.

As reservas dos criadores de arte prenunciaram o fato de que a recepção das idéias de Lukács no Brasil, como um divisor de águas no campo teórico e como ponta de lança da política cultural dos comunistas, não seria hegemônica.

Nos anos 80, Lukács continuava sendo uma referência viva para os segmentos da esquerda preocupados em renovar o marxismo, bem como para círculos de estudos dentro e fora da universidade. Mas deixou, sistematicamente, de ser o teórico que orientava a política cultural. Nesse momento, portanto, chegava ao fim a primeira vaga da recepção político-partidária das idéias lukacsianas.

Um segundo momento da recepção de Lukács parece estar se desenhando no horizonte através dos estudos centrados na Ontologia do ser social.

A revista Praxis, editada em Belo Horizonte, circulou de 1994 a 1997. Nos seus dez números, publicou diversos textos de autores brasileiros e estrangeiros (Nicolas Tertulian, Guido Oldrini etc) sobre a Ontologia.

Um grupo de jovens intelectuais, organizados em torno de José Chasin, vem se empenhando na divulgação da derradeira obra de Lukács. Através da Editoras Ensaio e Ad Hominem, e das revistas com os mesmos nomes das editoras, foram publicados diversos textos de Lukács e de seu discípulo Istvan Mészáros. O professor José Chasin, recentemente falecido, publicou um longo ensaio sobre o itinerário de Marx e Lukács, "Marx - estatuto ontológico e resolução metodológica", in Francisco José Soares Teixeira, Pensando com Marx (S. Paulo: Ed. Ensaio, 1995), além de ter orientado diversas teses que visavam decifrar os diversos capítulos da Ontologia. Ver, a propósito, Ester Weismann, O problema da ideologia na ontologia de G. Lukács (João Pessoa, 1986), Sergio Lessa Sociabilidade e individuação. A categoria da reprodução na ontologia de G. Lukács (Belo Horizonte, 1990), Maria Angélica B. Rodrigues, A determinação do "momento ideal" na ontologia de G. Lukács (PUC-S. Paulo, 1990), e Ronaldo V. Fortes, Trabalho e Gênese na "Ontologia" de George Lukács (Belo Horizonte, 2001).

Sergio Lessa, da Universidade Federal de Alagoas, organizou um "Centro de Documentação Lukács", escreveu o texto didático A ontologia de Lukács (Edufal, 1996), o livro Trabalho e ser social (Edufal, 1997), e orientou a tese de Maria Norma A. Brandão de Holanda, O fenômeno do estranhamento na ontologia de Georg Lukács (João Pessoa, 1998).

É interessante observar que essas teses acadêmicas, exercícios de exegese, dedicaram-se a analisar capítulos da obra de Lukács e que esses capítulos foram traduzidos e reproduzidos nos anexos da tese. Com isso, praticamente toda a Ontologia do ser social já se encontra traduzida em português.

Bibliografia

Arantes, Paulo. "Falsa consciência como força produtiva. Nota sobre filosofia e marxismo no Brasil". In: Lua Nova, número 19, 1989.

Chasin, José, O integralismo de Plínio Salgado. Ciências Humanas, 1978.