Notas para uma interpretação histórica da trajetória do PT

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Autor(es): Arcary, Valério

                                         (Versión en español) 
    

Houve algo de formidável e emocionante, mas, também, algo de terrível na história do PT. Para remeter ao vocabulário cunhado pelos clássicos gregos, tivemos o momento epopéia, o momento tragédia e, até, um pouco de comédia na trajetória em que o petismo se transformou em lulismo.
O PT foi o maior partido da história da classe trabalhadora brasileira no século XX. Nos anos oitenta, Lula e a direção do PT (que organizou a corrente Articulação) foram capazes de empolgar um partido que, em dez anos, evoluiu de uma organização de uns poucos milhares, para centenas de milhares de ativistas. E que saiu dos 10% dos votos em 1982 para governador em São Paulo (e menos de 3% na média nos outros Estados), para uma disputa muito apertada do segundo turno nas eleições presidenciais de 1989, contando apenas com contribuições voluntárias.
O PT de 2011 é, evidentemente, outro partido, embora a fração dirigente seja, essencialmente, a mesma. Em três décadas, o PT elegeu muitos milhares de vereadores, algumas centenas de deputados estaduais e federais, chegou ao governo de mais de mil prefeituras, muitos Estados e está pela terceira vez à frente da presidência. O PT de 2011 é a máquina eleitoral mais profissional do Brasil, portanto, integrada às instituições do regime e associada, estreitamente, a alguns dos mais poderosos grupos empresariais. Paradoxalmente, a autoridade de Lula não diminuiu.

O PT como surpresa histórica                                   
 
A explicação para o prestígio de Lula repousa em primeiro lugar na história do PT. Não há porque não lembrar que a formação em 1979/80 de um PT sem patrões, que evoluiu para a influência de massas, rapidamente, nas grandes cidades do Estado de São Paulo, liderado por um líder grevista metalúrgico, sem relações internacionais sólidas foi um fenômeno político admirável, porém, imprevisto. O PT não foi um acidente histórico, mas foi uma surpresa.[1] Nos final dos anos setenta, a maior parte da burguesia brasileira e os líderes políticos da ditadura ainda temiam, seriamente, o espaço político que o PCB por um lado, e Brizola e Arraes por outro, poderiam ocupar quando viesse a anistia. Era a etapa histórica da guerra fria. Foi um tempo de anticomunismo primitivo.
O PT e Lula são hoje muito sobreestimados, mas seria injusto não lembrar que foram subestimados quando apareceram na vida política nacional em 1979/80. Tão desdenhado foi o PT até 1982 que uma parcela da imprensa e da mídia da época não se preocuparam muito com a impressionante liderança de Lula entre os operários do ABC e, por isso, lhe permitiram uma visibilidade política que nunca foi cedida, por exemplo, a Prestes.
Não obstante, depois da fundação da CUT em 1983 a política da burguesia e da mídia em relação ao PT mudou. O processo de transição democrática que a ditadura perseguia estava sendo ameaçado pelas aparições de Lula e pelo papel do PT inspirando o proletariado de todo o país a lançar-se à luta sindical e política de forma independente. Ser petista era sinônimo de ser um igualitarista, um radical. Quando o peso de uma vanguarda de centenas de milhares de ativistas começou a ser sentido, sobretudo, durante a campanha pelas Diretas, o PT passou a ser considerado, seriamente, como um inimigo, e Lula como um perigo. Depois da eleição de Erundina para a Prefeitura de São Paulo, em 1988, foi criado o segundo turno nas eleições majoritárias para blindar a ameaça de novas vitórias petistas. A militância petista fazia a diferença nas greves, nas ocupações e, também, nas eleições.
 
O PT que nasceu das greves de 1979/1981
 
Não parece ser muito polêmico que o PT nunca foi um partido revolucionário, embora muitos lutadores honestos que combatiam pela revolução brasileira tenham militado, com abnegação e despojamento, em suas fileiras. Uma análise sóbria permite concluir que o PT surgiu como um partido operário com um projeto de representação independente da classe trabalhadora, mas com um projeto político dominante na sua direção de reformas para a regulação do capitalismo brasileiro.       
Em dez anos, entre 1979 e 1989, em função da decisão política de ser oposição à abertura lenta, gradual e controlada da ditadura militar - a estratégia de transição para democracia perseguida pelos governos Geisel e Figueiredo, sob a inspiração do general Golbery – o Partido dos Trabalhadores logrou ser o pólo de atração do que havia de melhor na geração de ativistas sociais que estiveram à frente dos maiores movimentos de massas da década, diminuindo a autoridade do MDB de Montoro e Tancredo quando eleitos governadores em São Paulo e Minas Gerais em 1982, e deslocando a influência que poderia ter sido atraída pela liderança de Brizola, eleito governador no Rio de Janeiro no mesmo ano, ou até do PCB de Prestes quando voltou do exílio.
Estes foram os anos em que a direção do PT e Lula ganharam o seu prestígio político. Defenderam as greves, apoiaram o nascimento do MST, ajudaram o movimento estudantil, acolheram o movimento de mulheres, ampararam o movimento popular urbano de luta por moradia, auxiliaram o movimento negro e, não menos importante, enfrentaram a ditadura, lançaram a campanha pelas Diretas, e denunciaram o acordo que culminou no Colégio Eleitoral permitindo, finalmente, a posse de Sarney. Mas, depois de 1988, quando assume a Prefeitura de São Paulo, o PT começou a mudar. Compreender estas pressões nos remete à história da luta da classe trabalhadora para entender o destino do PT.
 
Um proletariado jovem e combativo, mas, politicamente, inexperiente
 
Foi ao longo desses trinta anos que se desenvolveu a experiência de milhares de greves das mais variadas categorias de trabalhadores que revitalizaram os sindicatos. Aconteceu, também, o aprendizado superior das greves gerais dos anos oitenta. Houve os comícios imponentes de Lula em 1989, com centenas de milhares de pessoas nas ruas. A luta dos aposentados depois do plano Zélia/Collor comoveu o país. Sem esquecer a greve histórica dos petroleiros de 1995, a marcha do MST de 1997 sobre Brasília, um ano depois do massacre de Eldorado de Carajás, e tantas outras lutas populares. Mas, nesses combates parciais a classe trabalhadora brasileira sempre foi mais radical em suas ações do que em suas reivindicações. Moveu montanhas, mas para reivindicar muito pouco.
Somente por duas vezes, nesse intervalo histórico de três décadas de crescente confiança na direção de Lula, do PT e da CUT, as massas populares conseguiram irromper na cena política com a força grandiosa de sua mobilização política nas ruas, ameaçando o governo de plantão. Seu programa, mesmo quando agiam com métodos revolucionários – derrubar governos nas ruas é uma ação revolucionária, mesmo quando as mobilizações são pacíficas - era reformista.
A mobilização por objetivos políticos foi, portanto, incomum, inusitada. Para derrubar governos odiados, então, foi excepcional. As massas populares e a juventude descobriram nas Diretas e no Fora Collor que sua ação era poderosa. Mas, ficou claro, também, com a posse de Sarney (1985) e de Itamar (1992), que era mais fácil se juntarem contra Figueiredo e contra Collor, do que se unirem a favor de um projeto anticapitalista. O socialismo, uma referência vaga para milhões, não era senão uma aspiração de maior justiça. Foram às ruas expressando a imponência de sua força, imensas maiorias de pobres, deserdados e remediados em um país enorme, urbanizado em pouquíssimas décadas, muito jovem e quase sem instrução.[2]
 
O PT e as flutuações da relação de forças entre as classes
 
A CUT, o PT e Lula se legitimaram nesse processo, mas a classe trabalhadora não estava nem social, nem politicamente à frente da maioria popular explorada. Não dirigia, foi acaudilhada. Nem as Diretas, nem o Fora Collor, foram construídas com uma plataforma que destacasse as reivindicações de classe. O programa que levou milhões à luta não era senão democrático. Não surpreende que os grandes combates se deram nos limites de alianças com dissidências burguesas, como o MDB de Ulysses Guimarães e Tancredo Neves em 1984, e Orestes Quércia e Brizola em 1992.
Em 1992, quando já possuíam uma influência majoritária na classe trabalhadora, o lugar de Lula e do PT foi regressivo: chegaram atrasados às ruas, e coube a eles o papel de bombeiros assegurando a posse de Itamar que era, fora de Minas, um ilustre desconhecido, embora estivesse, quase acidentalmente, na vice-presidência.
Não obstante a pressão de inércia reacionária de um país culturalmente muito atrasado, onde o medo de represálias sempre foi muito efetivo para neutralizar a ação coletiva do povo e, politicamente, pouco organizado, a maioria da classe trabalhadora organizada nos sindicatos foi evoluindo à esquerda nos anos oitenta. Chegou a protagonizar duas greves gerais, em 1987 e 1989, que, ainda quando parciais, conseguiram dimensão nacional. Das ilusões no PMDB, a classe trabalhadora girou para a oposição ao governo Sarney, e levou Lula ao segundo turno em 1989. Já as classes médias urbanas evoluíram à esquerda nos anos finais da ditadura, mas depois se dividiram: uma maioria deslocou-se para o apoio a Collor em 1989, e depois sustentou com euforia o apoio ao plano Real. Depois da desvalorização da moeda em 1999, os setores médios se afastaram, lentamente, do governo FHC e do PSDB que sangravam com sucessivos escândalos de corrupção, enquanto o PT girava à direita, despudoradamente, e se aproximaram de Lula. Acabaram por se encontrar em 2002.
 A maioria do povo desorganizado permaneceu como base eleitoral dos partidos burgueses, herdeiros da Arena e do PMDB, ao longo dos vinte anos que separaram 1982 de e 2002, quando Lula foi eleito. Em resumo: primeiro, nos anos oitenta, os setores organizados do proletariado e a juventude estudantil, mas, depois, com o passar dos anos, na virada do século, uma parcela da classe média e, também, uma parte das massas populares semiproletárias apostaram, também, na mudança de suas vidas pela representação política que o PT e Lula ofereciam. Uma promessa de reformas com poucos riscos de confronto com os poderosos interesses do capital.
       
 Quatro crises
 
Neste processo, o PT enfrentou muitas crises, mas foram quatro as que marcaram sua história. A dinâmica política de sua evolução não foi linear. O critério para definir quais entre as crises foram as mais importantes é polêmico. Eis a hipótese deste artigo: uma crise é significativa quando um partido sai dela diferente, qualitativamente, daquilo que era. Nos anos oitenta, por exemplo, quando a situação política evoluía à esquerda pela mobilização mais ativa dos trabalhadores e da juventude, o PT teve a primeira ruptura pela direita, mas foi indolor, tanto na vanguarda mais orgânica quanto na área de influência eleitoral.[3]
A primeira grande crise veio com o governo Erundina à frente da Prefeitura de São Paulo. A questão central colocada era a relação com o regime democrático: aceitar ou não os limites legais da constitucionalidade. Erundina e outros prefeitos petistas, como o de Diadema no ABC da região metropolitana paulista, se viram diante do dilema de ocupações de terrenos públicos e privados pelos movimentos de moradia, e de greves de funcionários públicos. Apelaram à repressão, uns mais outros menos, e houve episódios até presos e feridos. Não houve rupturas no partido, mas as placas tectônicas do PT se moveram. O PT pagou a dívida externa do município, escrupulosamente, e não hesitou em convocar a PM (Polícia Militar) contra a luta operária e popular.
No início dos anos noventa, quando a situação política evoluía à direita, e as pressões burguesas pela estabilidade do regime democrático eram mais intensas, a direção do PT convocou o 1º Congresso e decidiu expulsar a Convergência Socialista, uma corrente trotskista que constituiu, após uma unificação com outras organizações marxistas, o PSTU.[4] Foi a segunda grande crise. Dali para frente, as tendências de esquerda que ainda resistiam no PT ficaram sabendo qual seria o seu destino, se desafiassem a direção. Esta crise não teve repercussão eleitoral, mas deixou uma ferida incurável: a ala revolucionária tinha sido eliminada e as reações foram declaratórias.
Paradoxalmente, após o impulso do Fora Collor, a corrente majoritária do PT - que tinha ido muito longe no seu giro à direita no 1º Congresso de 1991 - se dividiu, originando a Articulação de Esquerda. Esta corrente, unida às tendências marxistas DS (Democracia Socialista) e Força Socialista, entre outras, obteve uma vitória no Encontro Nacional do PT em 1993. A reação, no entanto, foi um fogo de palha e se revelou efêmera. No Encontro Nacional de 1995, na seqüência da segunda derrota presidencial de Lula em 1994, a Articulação, liderada por Zé Dirceu, recuperou a maioria, em aliança com a tendência Nova Esquerda, liderada por José Genoíno e Tarso Genro.[5]
Em 1999, a direção do PT, depois da terceira derrota eleitoral em 1998, realizou mais uma inflexão à direita: impôs um veto à campanha Fora FHC que a CUT e o MST vinham construindo, com o apoio da esquerda interna e externa ao PT, e que tinha realizado em Brasília um ato com cem mil ativistas. A campanha pelo Fora FHC de 1999 tentava mimetizar o que tinha sido a campanha Fora Collor em 1992, e ameaçava crescer em um contexto de intenso mal estar provocado pela maxidesvalorização do real no primeiro mês do segundo mandato de FHC. O posicionamento inflexível da direção do PT – Zé Dirceu condicionou a sua eleição à presidência do PT à derrota da moção pelo Fora FHC - demonstrou ao governo Fernando Henrique a disposição de bloquear qualquer movimento social.
 Coerente com a decisão de comprovar o seu compromisso com a governabilidade, em julho de 2002, a direção do PT articulou um Manifesto no lançamento da quarta candidatura de Lula à presidência, desta vez tendo como vice Zé Alencar, um dos maiores empresários do setor têxtil, e senador por Minas Gerais. Este documento declarava com todas as letras a decisão de honrar o pagamento da dívida pública, interna e externa.
 Finalmente, em 2003, depois da eleição de Lula, a direção do PT não hesitou em expulsar Heloísa Helena e os deputados que vieram a formar o PSOL, com a acusação, novamente, de indisciplina, por terem se recusado a votar no congresso a Reforma da Previdência.[6] Foi a terceira grande crise. Ficou comprovado que a mão da direção do PT não iria tremer no seu giro à direita.
 Foi, porém, em 2005, que o PT atravessou a mais séria crise de sua história. Uma parcela do núcleo duro de sua direção foi decapitada, politicamente, pela crise aberta pelas denúncias do mensalão. Apesar de indisfarçável satisfação das frações majoritárias da classe dominante com o governo Lula desde o primeiro mandato, a oportunidade aberta pela crise do mensalão precipitou uma ofensiva política burguesa no Congresso Nacional e na mídia, com algum eco nas ruas, nas fábricas e nas universidades, que fez Lula tremer no Palácio do Planalto. O mensalão obrigou o PT a sacrificar Zé Dirceu e dezenas de líderes, e deixou o partido desmoralizado entre os setores mais críticos do ativismo operário e popular, em boa parte da vanguarda estudantil mais lutadora, e nos meios da intelectualidade de esquerda mais honesta. Depois de oito anos no poder a condição de classe da direção do PT mudou (os sinais de enriquecimento rápido passaram a ser indisfarçáveis). O próprio partido mudou de natureza social. Ficou para a história o partido operário reformista. Depois de anos no poder nasceu um partido com relações orgânicas com algumas frações da burguesia brasileira.
 O PT preservou, contudo, uma influência majoritária no proletariado. Entre 2003 e 2010, Lula fez um governo que recebeu aplausos quase unânimes do que há de mais reacionário no Brasil e no mundo: de Maluf a Delfim Neto, de Michel Temer a Henrique Meirelles, de Bush a Sarkozy, de Merkel a Putin, não faltaram entre os maiores banqueiros, empreiteiros e latifundiários vozes dispostas a admitir em público o deslumbramento das classes dominantes de todos os continentes com Lula e o PT. Não fosse isso o bastante e, não obstante o impressionante desmascaramento do financiamento eleitoral através de relações obscenas com o empresariado – uma rotina de corrupção que o PT sempre denunciou - Lula surpreendeu pela resiliência de sua autoridade na classe operária. É verdade que as condições de crescimento econômico internacional beneficiaram Lula e o governo. Mas, não foram somente estas condições externas favoráveis que podem explicar a perenidade da influência do PT na classe trabalhadora. E tampouco foram as mais de dez milhões de bolsas família distribuídas
    
 A transformação do petismo em lulismo
 
As posições políticas não são, contudo, o único parâmetro para compreender o PT. Partidos podem ser julgados pela história de suas linhas políticas, as campanhas públicas em que se engajam, e de suas lutas políticas internas; pelo confronto entre suas posições quando estão na oposição, e quando estão no poder; pelo programa para a transformação da sociedade, ou até pelos valores e idéias que inspiram sua identidade; pela composição social de seus membros - militantes ou simpatizantes - ou dos seus eleitores, ou da sua direção; pelo regime interno do seu funcionamento; pelas formas de seu financiamento; ou pelas suas relações internacionais. Todos estes critérios são válidos, e a construção de uma síntese exige uma apreciação da sua dinâmica de evolução. Só não se pode é julgar um partido por aquilo que ele pensa sobre si próprio.
Considerando-se um ângulo político-sociológico, o PT nasceu como um partido operário com influência minoritária de massas até 1987, e majoritária na classe trabalhadora a partir de 1989; com uma corrente majoritária na direção, desde a fundação, liderada por um bloco político que uniu uma fração da burocracia sindical com aspirações de classe pequeno-burguesas, com um coletivo de líderes de origem na intelectualidade militante que veio da geração de 68, ou acadêmica; um núcleo dirigente que aceitava o papel de caudilho de Lula, simultaneamente, como porta-voz público e como bonaparte interno de suas variadas agrupações; um programa democrático-radical de reformas, ou seja, de regulação social do capitalismo, que se convencionou denominar de democrático-popular; relações internacionais híbridas que uniam o apoio de uma parcela da hierarquia católica, via Holanda e Alemanha (com relações institucionais minoritárias no Vaticano), o apoio de uma parcela da social-democracia internacional (via PS francês e SPD alemão), o apoio de uma parcela do aparelho estalinista internacional (via Cuba e, posteriormente, da Alemanha Oriental); e, finalmente, mas não menos importante, com uma ala esquerda muito fragmentada em diversas organizações, porém, com a peculiaridade da presença de alguns milhares de trotskistas. Este critério irá valorizar a relação da CUT com os Fundos de pensão estatais a partir dos anos noventa, em plena era das privatizações. A explicação deste processo exige uma perspectiva histórica.
 
Quatro etapas da história do PT
 
Outro caminho para construir uma história do PT seria uma análise histórico-política do partido. Periodizações são discutíveis, mas são inescapáveis. Considerado este ângulo, a história do PT pode ser dividida em quatro fases qualitativamente distintas:
(a) entre 1980 e 1985, o PT foi um partido de oposição ao regime militar e ao governo Figueiredo, e principal impulsionador de todas as lutas sociais contra a ditadura e, assim, conquistou a liderança nos movimentos sociais, deslocando o papel que antes de 1964 pertencia ao PCB. Depois da eleição de Sarney no Colégio Eleitoral e, depois da eleição da Constituinte em 1986, mas, sobretudo depois das eleições municipais de 1988, o PT deixou de ser um partido de oposição ao regime, agora um regime democrático-eleitoral, mas continuou sendo um partido de oposição intransigente ao governo;
(b) depois da derrota diante de Collor em 1989 e depois das eleições para os governos estaduais de 1990, sob a pressão da nova situação internacional aberta pela queda do muro de Berlim, o compromisso da direção do PT com a constitucionalidade levou o partido à hesitação face ao governo Collor. Por isso, recusou-se a tomar a iniciativa para começar uma campanha pelo Fora Collor em 1991, quando do 1º Congresso, mas depois que a campanha ganhou sustentação de massas nas ruas em agosto de 1992, apesar do PT, a apoiou;
 (c) depois da eleição de FHC em 1994, até 2002, o PT manteve a posição de oposição parlamentar, porém, recusando-se a mobilizar a sua base social de apoio para tentar impedir o governo FHC de governar, mesmo quando em 1999, se abriu a possibilidade de fazer contra FHC um movimento semelhante ao que foi feito contra Collor. Foi nesse processo que se consolidou a liderança de José Dirceu. Finalmente, depois da vitória de Lula, ou, mais precisamente, depois da Carta aos brasileiros em julho de 2002 quando se transformou em partido de governo, o PT passou a ser o principal suporte da contenção social para garantir a governabilidade de Lula. Foi o PT que conteve a possibilidade de expressão na forma de mobilização popular do desgaste social acumulado pelo desemprego, arrocho salarial e privatizações dos anos FHC. Foi a presença de Lula, sobretudo, que ajuda a explicar porque o regime democrático no Brasil não atravessou uma crise como na Argentina (2001);
 (d) O PT foi o partido dirigente do governo Lula que conseguiu, entre 2003 e 2010 – sobretudo, depois de 2006 – a estabilização política do regime democrático eleitoral: nenhum dos governos eleitos depois de 1989, nem Collor, nem Itamar, nem Fernando Henrique Cardoso tinha logrado uma anulação tão bem sucedida do protesto operário e popular. Durante estes oito anos de mandato o PT atravessou a crise do mensalão em 2005 e saiu dela, outra vez, irreconhecível: o escândalo escancarou o escárnio da direção do PT pelos limites éticos mais elementares, ao aceitar o financiamento ilegal, na escala apocalíptica de dezenas de milhões de dólares.
         
O PT diante do seu futuro
 
Cada geração retira conclusões refletindo, comparativamente, sobre um repertório de lições herdadas. A reeleição de Lula em 2006 e a eleição de Dilma Rousseff foram alicerçadas nos ventos favoráveis da situação econômica mundial entre 2003-2008 e a retomada do crescimento em 2010: a preservação da inflação baixa, o aumento lento mas constante do salário mínimo, a preservação do salário médio, e a diminuição do desemprego que permitiram o acesso ao crédito, e a extensão de políticas públicas como o Bolsa-Família.
Diante de circunstâncias excepcionais, como foi a queda da ditadura do Estado Novo (1937-1945) ou a ditadura militar (1964-1984) os trabalhadores precisaram encontrar um novo ponto de apoio político-sindical, como foi o processo aberto pela derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, que levou o PCB a se tornar em partido com influência de massas deslocando o varguismo, ou como foi o processo entre 1978-1984 que originou o PT e substituiu o PCB de Prestes.
A etapa de aprendizado sindical-parlamentar – cunhada na tradição marxista como a estratégia alemã, por analogia com a história da socialdemocracia mais poderosa do mundo – só se esgota no calor de uma situação revolucionária que ainda não se abriu. A colaboração de classes é um projeto que renasce uma e outra vez, enquanto os trabalhadores não ganharem suficiente confiança em si mesmos e suas lutas. As massas podem abandonar seus chefes de ontem, sem renunciar às quimeras de seus sonhos. Podem, também, se reconciliar com líderes que as decepcionaram.
Entre 1994 e 2002, via fundos de pensão e através das participações na gestão de fundos públicos, a burocracia sindical da CUT, ainda o principal aparelho de apoio social da direção do PT, entrou no mundo dos negócios. Depois da eleição de 2002, o PT passou a ter relações orgânicas com o grande capital brasileiro, e passou a aceitar com a crise do mensalão, o novo papel cesarista de Lula como líder incondicional. E insubstituível. O que anuncia a sua ruína. Mas, as ilusões reformistas dos trabalhadores não morrem sozinhas. Serão ainda necessários acontecimentos extraordinários, como nos ciclos históricos anteriores, para que uma nova direção possa se afirmar.




[1] Na tradição marxista um acidente histórico é um fenômeno acidental ou transitório, portanto, efêmero. O antagonismo entre a necessidade e o acaso é um dos temas teóricos mais apaixonantes no campo interdisciplinar entre a filosofia e a história.
[2] Entre 1950/80, o Brasil dobrava o PIB a cada década, em média. Precisou somente de trinta anos para dobrar a população. Em termos reais, a renda per capita era, em 1980, 50% maior que em 1950. Demorou, contudo, os últimos trinta anos para duplicar o PIB de 1980. E demorou, também, trinta anos para dobrar a escolaridade média: alcançou em 2010 uma escolaridade de 7 anos (para a população com 15 anos ou mais), metade da escolaridade dos países europeus do Mediterrâneo.
[3] Três deputados federais, Bete Mendes e José Eudes, liderados por Airton Soares, romperam com o partido em 1985, porque o PT não apoiou a Aliança Democrática que elegeu, indiretamente, a chapa Tancredo/Sarney no Colégio da ditadura, na seqüência da campanha das Diretas em 1984. Saíram sozinhos, sem deslocamentos militantes, e sem maiores seqüelas na influência eleitoral que permaneceu ascendente. A trajetória de Soares foi errática: uniu-se ao PDT (esteve nos bastidores da campanha para a presidência de Brizola em 1989), PSDB, PPS (esteve com Ciro Gomes em 1998) e, finalmente, filiou-se ao PV no apoio de Marina Silva em 2010.
[4] A Convergência Socialista tinha sido uma das primeiras tendências presentes desde a fundação. Zé Maria de Almeida foi um dos defensores da idéia da formação de um PT no congresso dos metalúrgicos de Lins em 1979. Em 1992, a acusação que fundamentou a expulsão da CS foi indisciplina, porque a tese que defendia a necessidade de uma campanha para tentar derrubar Collor tinha sido derrotada no 1º Congresso Nacional do PT de 1991, obtendo 30% dos delegados. A CS orientava 10% deste bloco e chegou a ter dois deputados no Congresso Nacional. A CS não aceitou a decisão e, apoiada em sua influência sindical e estudantil, que era superior à sua presença orgânica no PT - 15% na CUT (Central Única dos Trabalhadores) e 20% na UNE (União Nacional dos Estudantes) - saiu às ruas pelo Fora Collor. O PSTU apresentou Zé Maria como candidato nas eleições de 1998, 2002 e 2010, mas não conseguiu representação parlamentar. Foi a principal corrente da esquerda anticapitalista impulsionadora da CSP/CONLUTAS (Central Sindical e Popular/Coordenação Nacional de Lutas) que nasceu em 2005. Sobre a CS nos anos oitenta:
Consulta em 22/04/2011.
[5] A tendência Nova Esquerda surgiu da dissolução do PRC (Partido Revolucionário Comunista) em 1989. O PRC nasceu em 1979 de uma cisão do PCdB (Partido Comunista do Brasil), cuja história remete à cisão sino-soviética de 1961. O PCdB manteve referência na linha maoísta defendida pela Albânia, e esteve à frente da guerrilha do Araguaia no início da década de setenta. O PRC foi parte da oposição de esquerda que lutou no interior do PT nos anos oitenta. A Nova Esquerda realizou o giro político mais estonteante do final dos anos oitenta: chegou à conclusão que o estalinismo era indissociável do leninismo e do próprio marxismo. Uma análise consistente da evolução do PRC até a Nova Esquerda e. finalmente, a formação da Democracia Radical pode ser conferidas na tese de Eurelino Coelho. (2005), Uma esquerda para o capital: crise do marxismo e mudanças nos projetos políticos dos grupos dirigentes do PT (1979-1998). Tese de Doutorado. Niterói, Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Ou, também, em:
Consulta em 21/04/2011.
[6] O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) nasceu em 2004 da iniciativa liderada pela senadora Heloísa Helena (uma das lideranças da DS que, entretanto, se dividiu, também, e uma maioria de 90% manteve apoio ao governo Lula), e pelos deputados federais João Batista Babá e Luciana Genro, que expressavam as posições das tendências CST (Corrente Socialista dos Trabalhadores) e MES (Movimento de Esquerda Socialista), que tinham surgido de rupturas da CS em 1992. Em 2005, depois da crise do mensalão a Força Socialista, liderada pelo deputado Ivan Valente, rompeu também com o PT e uniu-se ao PSOL. O PSOL mantém representação parlamentar com três deputados nacionais.